Tuesday, November 2, 2010

EMBARGO, realizado por António Ferreira


Ontem fui ao cinema. Um filme português, de baixo orçamento, baseado num conto de 12 páginas de José Saramago. Um filme que não tinha tido sequer empresa distribuidora, um filme cuja publicidade dependeu exclusivamente do último esforço optimista do criador ao libertar a obra, da réstia do magro orçamento. Era tudo o que sabia sobre o que ia ver. Comprei os bilhetes, entrámos pontuais. Éramos duas na sala de exibição. Lá atrás, na sala de projecção, devem ter pensado que éramos nada, que nem havia espectadores tal a improbabilidade do projecto atrair público. Soubemo-lo porque as luzes permaneceram acesas, talvez para que a escuridão não caísse sobre a ausência em acto macabro. Vieram os anúncios para as cadeiras que supunham vazias. Começou o genérico. Na minha opinião um dos, se não o mais, original que vi até hoje. Começou um dos momentos mais extraordinários do meu amor pelo Cinema. Não vou contar a história porque o realizador e sua equipa merecem que aqueles que se sentarão frente à tela se deslumbrem em surpresa como nós nos deslumbrámos, nós as duas que em estado de fascínio nos acabávamos de curar do ligeiro cepticismo com que iniciámos a excursão. Ao que parece e naturalmente, as parcas páginas de um conto excelente não eram suficientes para uma longa-metragem. Daí que os diálogos tenham sido criados para o filme, bem como inúmeras alterações que desviaram o objectivo e o curso da história. Não se é só artista quando se cria de novo, é-se também quando se adapta e altera. Tiago Sousa e António Ferreira são, com toda a justiça, artistas. Artistas que dominam a estética, artistas que pensam, artistas completos, artistas que entendem e abraçam a necessidade de coerência, artistas que ousam romper com essa coerência quando assim o pede a obra e assim o faz a vida que a arte imita. Um filme em estilo realismo fantástico, uma obra a sépia que me fez descer os queixos e a assim mos deixou até que tive de falar, quando a funcionária do cinema entrou duas vezes na sala, espantada ao encontrar gente a assistir, e pediu desculpa pelo lapso das luzes. Ficámos às escuras, mas a nossa alma incandescia de prazer.


Ficha Técnica:

Realização de António Ferreira

Argumento de Tiago Sousa

Baseado na obra homónima de José Saramago

Elenco: Filipe Costa, Cláudia Carvalho, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo

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