Thursday, November 18, 2010

BRIEF ENCOUNTER, eterno encontro com David LEAN



BREVE ENCONTRO

Um homem e uma mulher partilham uma mesa na cafetaria de uma estação de comboios. Sussurram palavras de adeus, tão débeis e contidas que não são mais do que uma brisa entre as vozes dos outros passageiros. Tal como a história que haviam vivido juntos, também os últimos momentos lhes são amputados quando uma amiga de Laura chega e se senta à mesa tagarelando por tudo e por nada. O apito de comboio anuncia-se como um punhal em riste. Alec levanta-se. Um toque imperceptível no ombro de Laura e desaparece para sempre.
Em 1945, David Lean apresentou ao mundo Brief Encounter. Mais de dez anos depois realizaria Doctor Zhivago e Lawrence of Arabia. Mas esta obra de arte a preto e branco não se ensombra em grandeza. É um dos exemplos em que uma obra, tão discreta e subtil quanto as palavras de Alec e Laura, conquista o seu lugar na Constelação da Sétima Arte, apesar de críticas algo trocistas (um dos críticos da época escreveu o seguinte”English People should make tea and not love”). Mas o amor que Lean retracta é justamente o amor que ultrapassa o convencionalismo romântico dos filmes em geral. Não se encontram cenas de arrebatamento súbito, de violentos beijos sedentos de eternidade. Não. Laura e Alec conhecem-se numa estação de Comboios e nunca estarão juntos num leito. Ela é uma dona de casa com um casamento feliz. Ele um médico, também casado. A única coisa que têm em comum é o horário de partida na estação de caminhos de ferro. Quando um expresso passa, um grão de carvão entra no olho de Laura que, momentaneamente cega, pede ajuda à dona da cafetaria. Alec levanta-se e apresenta-se cordialmente. Num gesto preciso e conhecedor limpa o cisco de carvão. Um incidente facilmente esquecível. Mas quantas vezes os acontecimentos mais importantes da nossa vida provêm de acasos sem importância. Laura encontra Alec todas as Quintas-feiras, primeiro com surpresa, depois com agrado, mais tarde com ansiedade. Com o vinho doce do amor, vem também a culpa, o sofrimento. Laura pensa “It’s awfully easy to lie when you know that you’re trusted implicitly. So very easy and so very degrading.” E aqui entra a mestria de David Lean. Não é a vida que separa os dois apaixonados e sim a consciência. A grande lição de amor e compreensão reside no último terço do filme. Alec decide aceitar um emprego em Joanesburgo e parte com a família para nunca mais voltar. Laura regressa a casa de mais um dia de compras e hesita entre contar ao marido, que sente ser o seu verdadeiro confidente e amigo (a única pessoa no mundo capaz de compreender e perdoar, diz), e poupá-lo ao sofrimento da verdade. Passa o serão sentada numa poltrona, falando de coisas sem importância, dilacerada por dentro. E eis que surge a cena chave da mensagem do filme. O marido, observador, levanta os olhos do jogo de palavras cruzadas e aproxima-se. Sussurra-lhe: "Whatever your dream was, it wasn’t very happy, was it? Is there anything I can do to help?" Laura responde: "Yes, Fred. You always help". O marido continua docemente: "You have been away a long time, haven't you? Thank you for coming back to me.”
Celia Johnson, como Laura, foi o ponto de partida para a escolha do elenco. Seguiu-se Trevor Howard que julgou ser alvo de um uma selecção sem continuidade e pouco profissional quando contactado a primeira vez. Um mal entendido que resultou em que não se apercebesse que o convite vinha de David Lean para o papel principal em Brief Encounter. Muitas vezes Howard e Lean discordaram na direcção do guião, mas essa discordância não afectou a brilhante performance de Trevor Howard, nem tão pouco o trabalho de Lean.
O 2º Concerto para piano e orquestra de Rachmaninoff arrebata o espectador desde os primeiros segundos de filme, quando um comboio entra na estação em direcção às câmaras, e dá o tom trágico à história.
O verdadeiro talento de um realizador reside tanto em ser capaz de produzir uma obra discreta e simples (como Brief Encounter) como uma grande produção (como Doutor Zhivago). David Lean é um realizador de valor incontestável e com o domínio artístico de um grande virtuoso. O brief encounter que temos com esta sua obra não é de todo breve, é o deslumbramento eterno que todos os artistas pretendem inspirar.
Cena final (link) http://www.youtube.com/watch?v=hubyFqSUaGA

Ficha Tecnica:
Realizado por David Lean
Baseado num romance de Noel Coward
Musica Sergei Rachmaninoff
Célia Johnson (Laura Jesson), Trevor Howard (Dr. Alec Harvey), Cyril Raymond (Fred Jesson), Stanley Holloway, Joyce Carey…

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