Friday, March 18, 2011

THE KING’S SPEECH - O DISCURSO DO REI, realizado por Tom Hooper



Um filme médio, segundo algumas opiniões, referido apenas pelo desempenho extraordinário do actor principal. O Discurso do Rei, devo concordar, não pode ser posto a par de clássicos sobre a personalidade Humana que fizeram escolas, que foram imitados, refeitos, analisados até à exaustão por especialistas e críticos. É demasiado discreto, tão discreto como a sua personagem principal George VI de Inglaterra cujo valor era ensombrado por um exterior tímido. O filme também é tímido. E essa timidez faz com que pareça superficial ou pouco abrangente historicamente. Não é verdade. É preciso dedicar-lhe uma atenção minuciosa, atender a todas as pistas subtis que deixa à passagem de cada cena.

O argumento é simples, como o são os das grandes obras. George V de Inglaterra antevê a proximidade da morte, e põe a questão da sucessão. O seu filho mais velho Edward, que viria a ser Edward VIII mantém uma relação com Wallis Simpson, uma americana casada e de hábitos românticos duvidosos. George V deposita a confiança no seu segundo filho, Albert, cuja gaguez o impede de discursar publicamente. Elizabeth, esposa de Albert (mais tarde a tão adorada rainha mãe) procura a ajuda de um terapeuta da fala autraliano com métodos inovadores que vão desde exercícios físicos até à análise dos traumas psicológicos causadores da gaguez. Dois gigantes do cinema fazem o seu diálogo com actuações notáveis: Colin Firth como Albert e Geoffrey Rush como terapeuta. Colin Firth reproduz a alteração da respiração e do curso do discurso que a gaguez provoca com uma mestria sem precedentes. Todo o seu comportamento físico é estudado e intencional, desde a inicial arrogância para com o terapeuta que dá lugar a uma humildade perante a competência, a tensão constante de um corpo que foi contrariado toda a vida e que só se liberta nas explosões de raiva, até essas discretas – mérito do realizador. Geoffrey Rush brilha como um terapeuta dividido entre a reverência que tem para com um membro da família real e a confiança nos prórpios dotes. Ambos os actores se preocuparam em realçar o trabalho mútuo conferindo uma dinâmica coesa a cada cena. Nada no filme é exagerado ou caricatural. Todos os pormenores são cuidados, desde a caracterização e escolha dos actores de acordo com a parecença física com as personagens que interpretam, até à luz melancólica e chuvosa, ainda que acolhedora, da Inglaterra. As referências breves ao filme My Fair Lady, a propósito da terapia da fala, são simpáticas.

Com a morte de Goerge V e a abdicação de Edward VIII, Albert é aclamado rei, adoptando o título de Geroge VI. O dia que Albert teme chega com a Inglaterra a entrar na II Guerra Mundial. É necessário que o rei faça um discurso à nação. Aqui é gerada uma polémica resultante da decisão do realizador de acentuar a angústia da família real perante a possibilidade da gaguez do rei, em detrimento da verdadeira crise do momento – a guerra. Não existe, na minha opinião, incoerência, parcialidade ou desequilíbrio nessa decisão. Não só porque criar uma história é lançar um olhar parcial sobre um acontecimento, mas também porque a gaguez do rei, no momento em que afirmava a sua posição perante o povo e perante o inimigo, poderia pôr em causa a força da Inglaterra, exibindo um monarca incapaz. Conduzido pelo terapeuta da fala, que o dirige como a uma orquestra dando-lhe o tom, o ritmo, as entradas, as pausas, o rei discursa. Como banda sonora da cena, o segundo andamento da sétima sinfonia de Beethoven, uma peça que demora exactamente nove minutos, como o discurso do rei. Mais à frente, um trecho do concerto do Imperador, no momento em que George VI recebe a aclamação do país. Por quê Beethoven? Por que razão todas as peças de música clássica usadas no filme são de compositores alemães, ou austríacos? Um fair play do realizador inglês Tom Hooper. Mais do que isso, a expressão do filme é justamente um dueto entre a história de um rei inglês e a música de compositores alemães. Uma mensagem sobre a grandeza humana universal que emerge acima das guerras, das questões temporais.
http://www.youtube.com/watch?v=PPLIw64rLJc

Ficha Técnica

Realização: Tom Hooper
Argumento: David Seidler
Elenco: Colin Firth (King George VI), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helen Bonham Carter (Queen Elizabeth), Guy Pearce (King Edward VIII), Eve Best (Wallis Simpson), Michael Gambon (King George V)…

Thursday, December 2, 2010

VIVRE POUR VIVRE, Claude Lelouch






Viver para viver.
Robert ama Catherine. Catherine ama Robert. Robert é infiel, Catherine sabe-o. Entre o saber e o dizer existe um imenso espaço. E nesse campo murado pelas coisas que não se dizem, mas que se sabem, nasce a história que Claude Lelouch trabalha genialmente. Francis Lai (compositor da banda sonora) sussurra o ambiente do filme com uma mestria que em certas cenas dispensa os diálogos. Claude Lelouch conhece a Humanidade muito além dos factos, como uma divindade que antecipa acções futuras. Descreve a história de Catherine e Robert com um olhar exterior, mas preciso. De todos os realizadores até hoje, foi talvez Claude Lelouch que melhor filmou Paris, aliás recorrente nos seus filmes (Partir revenir, Les uns et les autres). Tendo tornado a Cidade Luz da década de sessenta imortal, mais – perene –, tornou também intemporal o seu próprio universo. Vivre pour vivre é um filme da sua época, ou que retracta a sua época, mas que acentua características humanas estruturais.
A escolha do elenco foi ousada, mas é da ousadia que nascem as melhores obras. Yves Montand interpreta Robert, um cosmopolita repórter de guerra. Annie Girardot interpreta Catherine, mulher de Robert sobre quem tem um ascendente cultural, quase maternal. Candice Bergen interpeta Candice, uma mulher passageira na vida de Robert, uma espécie de incentivo ao adultério que na verdade se torna o ponto de retorno na vida do casal. Qualquer história de amor tem de começar, ou recomeçar a partir da verdade.
http://www.youtube.com/watch?v=FDLP0rQ6HU0

Ficha Técnica:

Realização: Claude Lelouch
Música: Francis Lai
Yves Montand, Annie Girardot, Candice Bergen
1967

Thursday, November 18, 2010

BRIEF ENCOUNTER, eterno encontro com David LEAN



BREVE ENCONTRO

Um homem e uma mulher partilham uma mesa na cafetaria de uma estação de comboios. Sussurram palavras de adeus, tão débeis e contidas que não são mais do que uma brisa entre as vozes dos outros passageiros. Tal como a história que haviam vivido juntos, também os últimos momentos lhes são amputados quando uma amiga de Laura chega e se senta à mesa tagarelando por tudo e por nada. O apito de comboio anuncia-se como um punhal em riste. Alec levanta-se. Um toque imperceptível no ombro de Laura e desaparece para sempre.
Em 1945, David Lean apresentou ao mundo Brief Encounter. Mais de dez anos depois realizaria Doctor Zhivago e Lawrence of Arabia. Mas esta obra de arte a preto e branco não se ensombra em grandeza. É um dos exemplos em que uma obra, tão discreta e subtil quanto as palavras de Alec e Laura, conquista o seu lugar na Constelação da Sétima Arte, apesar de críticas algo trocistas (um dos críticos da época escreveu o seguinte”English People should make tea and not love”). Mas o amor que Lean retracta é justamente o amor que ultrapassa o convencionalismo romântico dos filmes em geral. Não se encontram cenas de arrebatamento súbito, de violentos beijos sedentos de eternidade. Não. Laura e Alec conhecem-se numa estação de Comboios e nunca estarão juntos num leito. Ela é uma dona de casa com um casamento feliz. Ele um médico, também casado. A única coisa que têm em comum é o horário de partida na estação de caminhos de ferro. Quando um expresso passa, um grão de carvão entra no olho de Laura que, momentaneamente cega, pede ajuda à dona da cafetaria. Alec levanta-se e apresenta-se cordialmente. Num gesto preciso e conhecedor limpa o cisco de carvão. Um incidente facilmente esquecível. Mas quantas vezes os acontecimentos mais importantes da nossa vida provêm de acasos sem importância. Laura encontra Alec todas as Quintas-feiras, primeiro com surpresa, depois com agrado, mais tarde com ansiedade. Com o vinho doce do amor, vem também a culpa, o sofrimento. Laura pensa “It’s awfully easy to lie when you know that you’re trusted implicitly. So very easy and so very degrading.” E aqui entra a mestria de David Lean. Não é a vida que separa os dois apaixonados e sim a consciência. A grande lição de amor e compreensão reside no último terço do filme. Alec decide aceitar um emprego em Joanesburgo e parte com a família para nunca mais voltar. Laura regressa a casa de mais um dia de compras e hesita entre contar ao marido, que sente ser o seu verdadeiro confidente e amigo (a única pessoa no mundo capaz de compreender e perdoar, diz), e poupá-lo ao sofrimento da verdade. Passa o serão sentada numa poltrona, falando de coisas sem importância, dilacerada por dentro. E eis que surge a cena chave da mensagem do filme. O marido, observador, levanta os olhos do jogo de palavras cruzadas e aproxima-se. Sussurra-lhe: "Whatever your dream was, it wasn’t very happy, was it? Is there anything I can do to help?" Laura responde: "Yes, Fred. You always help". O marido continua docemente: "You have been away a long time, haven't you? Thank you for coming back to me.”
Celia Johnson, como Laura, foi o ponto de partida para a escolha do elenco. Seguiu-se Trevor Howard que julgou ser alvo de um uma selecção sem continuidade e pouco profissional quando contactado a primeira vez. Um mal entendido que resultou em que não se apercebesse que o convite vinha de David Lean para o papel principal em Brief Encounter. Muitas vezes Howard e Lean discordaram na direcção do guião, mas essa discordância não afectou a brilhante performance de Trevor Howard, nem tão pouco o trabalho de Lean.
O 2º Concerto para piano e orquestra de Rachmaninoff arrebata o espectador desde os primeiros segundos de filme, quando um comboio entra na estação em direcção às câmaras, e dá o tom trágico à história.
O verdadeiro talento de um realizador reside tanto em ser capaz de produzir uma obra discreta e simples (como Brief Encounter) como uma grande produção (como Doutor Zhivago). David Lean é um realizador de valor incontestável e com o domínio artístico de um grande virtuoso. O brief encounter que temos com esta sua obra não é de todo breve, é o deslumbramento eterno que todos os artistas pretendem inspirar.
Cena final (link) http://www.youtube.com/watch?v=hubyFqSUaGA

Ficha Tecnica:
Realizado por David Lean
Baseado num romance de Noel Coward
Musica Sergei Rachmaninoff
Célia Johnson (Laura Jesson), Trevor Howard (Dr. Alec Harvey), Cyril Raymond (Fred Jesson), Stanley Holloway, Joyce Carey…

Tuesday, November 2, 2010

EMBARGO, realizado por António Ferreira


Ontem fui ao cinema. Um filme português, de baixo orçamento, baseado num conto de 12 páginas de José Saramago. Um filme que não tinha tido sequer empresa distribuidora, um filme cuja publicidade dependeu exclusivamente do último esforço optimista do criador ao libertar a obra, da réstia do magro orçamento. Era tudo o que sabia sobre o que ia ver. Comprei os bilhetes, entrámos pontuais. Éramos duas na sala de exibição. Lá atrás, na sala de projecção, devem ter pensado que éramos nada, que nem havia espectadores tal a improbabilidade do projecto atrair público. Soubemo-lo porque as luzes permaneceram acesas, talvez para que a escuridão não caísse sobre a ausência em acto macabro. Vieram os anúncios para as cadeiras que supunham vazias. Começou o genérico. Na minha opinião um dos, se não o mais, original que vi até hoje. Começou um dos momentos mais extraordinários do meu amor pelo Cinema. Não vou contar a história porque o realizador e sua equipa merecem que aqueles que se sentarão frente à tela se deslumbrem em surpresa como nós nos deslumbrámos, nós as duas que em estado de fascínio nos acabávamos de curar do ligeiro cepticismo com que iniciámos a excursão. Ao que parece e naturalmente, as parcas páginas de um conto excelente não eram suficientes para uma longa-metragem. Daí que os diálogos tenham sido criados para o filme, bem como inúmeras alterações que desviaram o objectivo e o curso da história. Não se é só artista quando se cria de novo, é-se também quando se adapta e altera. Tiago Sousa e António Ferreira são, com toda a justiça, artistas. Artistas que dominam a estética, artistas que pensam, artistas completos, artistas que entendem e abraçam a necessidade de coerência, artistas que ousam romper com essa coerência quando assim o pede a obra e assim o faz a vida que a arte imita. Um filme em estilo realismo fantástico, uma obra a sépia que me fez descer os queixos e a assim mos deixou até que tive de falar, quando a funcionária do cinema entrou duas vezes na sala, espantada ao encontrar gente a assistir, e pediu desculpa pelo lapso das luzes. Ficámos às escuras, mas a nossa alma incandescia de prazer.


Ficha Técnica:

Realização de António Ferreira

Argumento de Tiago Sousa

Baseado na obra homónima de José Saramago

Elenco: Filipe Costa, Cláudia Carvalho, Pedro Diogo, Fernando Taborda, José Raposo